Um brasileiro gritava que as coisas iam de mal a pior porque os outros não têm vergonha na cara, só pensam em levar vantagens, são nocivos, se preocupam cada vez mais em explorar e cada vez menos em produzir.
A dor parecia ser também dos que passavam, porque muitos paravam, concordavam, lamentavam profundamente a podridão dos outros que, enquanto são povo, querem resolver os problemas sociais, lutam com unhas e dentes. Então, se candidatam, se elegem, assumem o poder e passam a usar e a abusar dos cofres públicos.
Um vereador pediu a palavra, falou dos marajás, dos funcionários fantasmas, dos subornos. Garantiu que o grosso do dinheiro público é furtado, geralmente, via muitas empreiteiras que funcionam como poderosas quadrilhas organizadas.
Apareceu um prefeito e endossou a acusação do vereador, confessou ficar indignado com o procedimento ilícito de alguns outros prefeitos que denigrem a classe política e, muito pior, causam danos irreparáveis a municipalidade.
Um eleitor culpou os outros eleitores, disse que o povo, realmente, infelizmente, não sabe votar, não tem capacidade para escolher seus representantes, não tem consciência que poderia revolucionar a nação fazendo bom uso da arma que já tem em mãos: o título de eleitor. Todos concordaram e comentaram que o povo vota naqueles que prometem favores pessoais. Tacharam o povo de egoísta, mesquinho...
Uma senhora disse não se conformar com o enorme número de crianças miseráveis jogadas nas ruas, se marginalizando para sobreviverem, tudo porque os adultos não contribuem para a formação de uma sociedade menos selvagem. Lamentou a situação de aposentados, desamparados e humilhados por governantes, subestimados por pessoas jurídicas e ignorados por pessoas físicas. Encerrou sob olhares aprovadores
Uma educadora lamentou a mentalidade tacanha de humoristas escarnecedores, que se aproveitam de tragédias ou acidentes para gerar o humor desgraçado, banalizando a vida, semeando o desrespeito e contribuindo para a formação de uma geração pobre em solidariedade, paupérrima em amor ao próximo e rica em egoísmo.
Com a voz embargado um sociólogo recriminou famosos, que ao invés de aproveitarem a popularidade para defenderem causas nobres, se tornam garotos propaganda de toda sorte de produto, e pior: vendem a nudez de seus próprios corpos e se ofenderão se alguém disser que isso é prostituição.
Um empresário musical se dizia indignado com os que compram produtos piratas mas se imaginam honestos, idôneos e não reconhecem que são receptadores de coisas roubados.
Com um violão, um compositor cantou sua música de protesto, descendo o pau nos outros. Pediram bis, ele atendeu e todos tentaram cantarolar com ele.
Jovem disse não conseguir entender os outros jovens, que não têm originalidade, só copiam, entram no embalo, se preocupam em ter roupas de marca, relógios de marca, tênis de marca. Só a cabeça na "marcação". Mais aplausos.
Pais citaram erros de outros pais na criação dos filhos, filhos citaram erros de outros filhos, mães tentavam consertar outras mães, irmãos sabiam como melhorar seus irmãos, vizinhos queriam corrigir outros vizinhos. Todo mundo tinha receita para acabar com a podridão.
No meio da multidão, uma voz explicou que as coisas não melhoram porque as outras pessoas não percebem que a carapuça é pra elas. Cômico foi que todas riram da ingenuidade das outras.
terça-feira, 3 de março de 2009
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