quarta-feira, 15 de abril de 2009

Parados no Tempo

- Esta fila está andando muito devagar ou é impressão minha?
- É impressão da senhora.
- O senhor vem sempre aqui?
- Antes vinha quase que diariamente, agora duas ou três vezes por semana.
- Se eu sair um minutinho o senhor guarda o meu lugar?
- Não posso, nesta fila ninguém guarda lugar.
- Mas é um minutinho só!
- Se a pessoa abandona a fila e depois quer retornar, tem que entrar atrás do último. Aqui é cada um por si.
- O senhor fala sério?
- Seríssimo. Uma vez, após três horas na fila, saí para cumprimentar um amigo que havia descido de um táxi, quando voltei passei a ser o último.
- E o senhor não reclamou?
- Reclamei, esperneei e implorei em vão.
- E se a pessoa passar mal, se não tiver condições de permanecer?
- Volta outro dia.
- Que absurdo! Eu só queria confirmar que a fila está andando muito devagar, que não é impressão minha como o senhor disse.
- É impressão sim, está fila está parada.
- Parada? Mas para quê serve esta fila?
- Para que percamos tempo, como quase toda fila. Eu ainda moro longe, tomo dois ônibus e caminho mais de dois quilômetros para chegar aqui. E a senhora?
- É a primeira vez que venho.
- Foi recomendação médica?
- Não. Como recomendação médica? Esta fila é pra quê?
- Pensei que a senhora soubesse. Esta fila é para tratar dependentes.
- Dependentes do quê?
- De filas.
- Continuo sem entender.
- Criaram esta fila para pessoas viciadas em filas, como eu, que passei mais de 35 anos perdendo tempo nelas. De repente me vi aposentado, tendo insônia, mal humor e ansiedade. Um amigo sugeriu que eu viesse aqui, eu relutei mas acabei vindo e já estou me sentindo muito melhor.
- Quem atende as pessoas?
- Ninguém, é auto-atendimento. Cada um chega e vai ficando, quando sente que já perdeu tempo suficiente, vai embora.
- Que maluquice!
- Maluquices são essas filas comuns, que nos jogam nessa situação de dependência. Se eu não tivesse encontrado este lugar não sei o que seria de mim.
- E aquelas crianças ali na frente?
- Foram viciadas por adultos, algumas desde recém-nascidas, iam às agências bancárias inúmeras vezes no mesmo dia. Em dias de pagamento então...
- Estou sentindo pena de toda essa gente.
- Sinta também pena de si mesma.
- Mas eu não sou dependente.
- Por que entrou na fila então?
- Para ganhar tempo. Muitas vezes fui às repartições públicas, vi filas grandes, não entrei nelas logo que cheguei e depois de pedir informações a funcionários descobri que o único caminho era a fila. Por isso prefiro entrar numa fila errada para não perder o lugar numa fila certa.
- Este é um dos principais sintomas da SDTI, muitos padecem deste mal e nem imaginam.
- Qual o significado de SDTI.
- Sindrome da Dependência Temporal Inútil.
- O senhor entrou na fila para perder tempo e eu para ganhar tempo. É exatamente o oposto, eu não sofro desse mal.
- Eu também pensei que não sofresse, sempre detestei perder tempo, não queria admitir meu vício, como a maioria dos viciados, mas não podia ver uma fila, me sentia tentado a entrar. Já era um dependente crônico não assumido. Não se sinta constrangida, a senhora é vítima, todos aqui são vítimas.
- Por que alguns estão em poltronas confortáveis?
- Trouxeram de casa, se habituaram a perder tempo nas agências bancárias federais, que roubam o precioso tempo de vida do cliente, de um jeitinho mais camuflado, sofisticado...
- Estou enxergando mal ou lá na frente há uma rampa?
- É uma rampa mesmo.
- O senhor sabe pra quê?
- Para as vítimas de congestionamento na estrada, gente que descia e subia a serra para ir à praia, por isso que muitos estão de frente pra cá.
- Vi uma senhora com um vidro cheio de um líquido marrom na mão.
- Também é vítima do trânsito, acostumou a perder tempo nas marginais de rios imundos. O líquido do vidro traz o odor característico.
- Observei também que muitas pessoas evitam conversar com as outras.
- Porque têm medo de ouvir alguma frase útil, uma única frase útil pode impedir o ser humano de perder tempo.
- Peço desculpas se o atrapalhei.
- De maneira alguma, ter conversado com a senhora foi o máximo, por hoje o meu dia já está perdido. Até mais!

quinta-feira, 26 de março de 2009

O segredo do cofre

- Meu filho foi picado, doutor.- E recebeu alguma medicação?- Não.- Que absurdo! Quantos anos tem ele?- Vai fazer treze dia dois do mês que vem.- Se fosse criança ou idoso seria ainda mais preocupante, os adultos e os adolescentes são mais resistentes mas é imprescindível o atendimento médico. Ele veio com a senhora?- Não, ficou em casa trancado no quarto. - A vítima deve ser mantida o mais calma e quieta possível, agasalhada, mas também não precisavam trancá-lo no quarto.- Ele mesmo se trancou.- Deveria tê-lo trazido. Quantas horas já se passaram?- Muitas.- Deveriam tê-lo levado de imediato ao centro médico mais próximo.- Só percebi que foi picado hoje, quando ele estava tomando banho. Quase entrei em parafuso, perguntei o que estava acontecendo, ele sequer respondeu, entrou no quarto e fechou a porta na minha cara.- É possível diagnosticar uma mordedura de serpente baseando-se nas marcas das presas, na vermelhidão, na inflamação, falta de sensibilidade da mão, do pé ou em volta da boca.- Insensível ele está...- Observou se tem febre, calafrios, arritmia cardíaca, náuseas e vômitos, dificuldade respiratória, dor de cabeça, visão turva, pálpebras caídas, secura na boca?- Calafrios, arritmia cardíaca e dor de cabeça têm sido frequentes em mim, não nele.- As gengivas podem sangrar e pode aparecer sangue no vômito, nas fezes e na urina, também pode apresentar dificuldade de falar e engolir.- De falar ele tem tido, muita.- Sabe qual é a altura e o peso dele?- Já me passou, tenho 1,65... - O efeito do veneno depende do tamanho da vítima, da idade, da saúde da pessoa, do peso.- O peso dele está bom, a cabeça é que está inchada.- Inchou a cabeça? Nossa! Em que lugar ele levou a picada?- No ouvido.- Tem certeza que foi na orelha? A grande maioria das vítimas é picada nas extremidades, pés ou mãos.- Foi picado utilizando o fone de ouvido!- Então deve ter sido vespa, abelha ou marimbondo; pensei que tivesse sido picado por cobra... Não terá sido escorpião? Pode acontecer de um escorpião se alojar no fone de ouvido, a pessoa vai ouvir música e é pega de surpresa. Quem é picado por escorpião deve ficar sem se alimentar de 8 a 12 horas.- Meu filho, coitado, foi pego de surpresa e picado nos dois ouvidos ao mesmo tempo, não pelo escorpião, pelas músicas chulas doutor; essas porcarias que tocam por aí e impregnam as mentes das crianças, dos adolescentes, adultos... O senhor nunca foi vítima de uma aberração dessas? - Claro que sim, fui e ainda continuo sendo. Muitas vezes me surpreendi cantarolando essas coisas que tanto abomino. É triste... Nem vou cobrar a consulta, bem entendido, desde que a senhora não cantarole nem um pedacinho dessas musiquetas deploráveis.- Mas que conselho o senhor me vende, doutor?- Já disse que não cobrarei. Tente matricular o seu filho num curso de violão, violino, piano, saxofone, violoncelo, cravo, teclado, harpa, clarinete, canto... Isso tem um ótimo resultado na prevenção e muitas vezes também na cura.- Por quê?- Essas musiquetas não têm espaço nos cursos sérios de música e os estudantes conviverão com obras que edificam e se estasiarão. Tem mais gente na familia que foi contaminada?- Meu marido também parece que perdeu o senso crítico.- Não o condene, ele é inocente, é vítima. As músicas nefastas invadem o sub-consciente humano, e como a senhora bem percebeu, picam, sem pedir licença, como os pernilongos, mosquitos da dengue...- O que devo fazer?- Matricule-o também, acredito que seja a melhor maneira de desenvolver o antídoto, tentando aprender a tocar as músicas úteis nos tornamos muito menos vulneráveis às nocivas ou inúteis. - E se um deles se transformar em músico e optar por se dedicar ao submundo musical?- Não se sinta culpada, a senhora não tinha essa sórdida intenção. - O caçula também está se ligando, quero dizer, curtindo coisas assim...- Por que permitiram? Música é alimento, é remédio! O médico não pergunta ao paciente que remédio ele quer tomar, receita e pronto. Se deixarmos que uma criança escolha a alimentação, passará o dia comendo porcarias, se tiver uma anemia a culpa é dos pais. Primeiro a criança tem que aprender quais são os alimentos indispensáveis, há músicas indispensáveis também, funcionam como vacina contra essas que tanto a indignam!- O senhor está insinuando que eu tenho culpa no cartório?- No cartório não, no repertório. Deveriam ter vacinado seus filhos contra músicas chulas. Por que não os inscreveram num coral, numa fanfarra? - Mas não precisa ter talento musical?- Nosso coração bate ritmadamente, os sons que produzimos têm notas musicais, a fala, o choro, o riso, a gargalhada são melódicos. A música está até no nosso silêncio... A senhora sabia que música chula escraviza, gera uma espécie de dependência? - O senhor está falando sério?- Lógico! Música faz a cabeça, disvirtua, incute filosofias...- Mas eles estão tendo aulas de filosofia na escola!- Mas prevalece a filosofia que vem acompanhada de melodia, por mais vagabundas que sejam.- Não imaginava que o senhor desse tanta importância à música!- Reconheço a importância que a música tem, me encanto com o canto das aves, das pessoas, dos ventos, das águas! Em determinados momentos o ser humano é um cofre fechado para todos e aberto só para músicas. - Foi ótimo ter conversado com o senhor, abriu a minha mente, eu estava sem noção. Acha que devo me matricular num curso de violão também, doutor?- Deve, deve sim, tenho certeza e também mudei de idéia...- Como assim?- Vou cobrar a consulta, a senhora reavivou na minha mente sons que estavam praticamente extintos e agora, neste exato momento, já estão querendo entrar em errupção!

segunda-feira, 16 de março de 2009

Realidade nua e crua

- O senhor vai almoçar?
- Claro.
- Já escolheu?
- Comerei o que tem no cardápio.
- Gostaria de algo que não temos?
- Adianta querer o impossível?!
- Podemos providenciar, dependendo...
- Não, é ilegal. Uma porção de arroz...
- Não prefere arroz de braga?!
- Quero um arroz praga, arroz que tenha crescido de teimoso em terra ruim.
- Salada?
- De alface, pepino, tomate, beterraba, palmito e agrião.
- Tempero normal?
- Normal, azeite português legítimo, sal, pimenta do reino e sete colheres de sopa de creolina.
- O senhor disse creolina?!
- Disse, por quê? O que o senhor tem contra creolina?
- Nada, mas creolina faz mal.
- Faz mal e o senhor acabou de dizer que nada tem contra. Tempere a salada com creolina.
- O senhor poderá ter sérias complicações estomacais, intestinais, poderá até morrer.
- Qualquer idiota sabe disso, mas compromisso é compromisso, assumi e vou cumpri-lo.
- Desculpe, mas assumiu com quem?
- Com a história.
- ... Quer carne?
- Peixe.
- De água doce ou salgada?
- De água salobra. Qualquer peixe.
- Frito, ensopado ou preparado na brasa?
- Não há tempo para isso. Traga o peixe despreparado mesmo.
- Se o senhor está com muita pressa podemos colocá-lo no microondas!
- Quero peixe cru, com barrigada, escamas e barbatanas.
- Peixe cru não é aconselhável.
- Não estou pedindo conselhos, estou pedindo o almoço. Traga também picanha de vaca holandesa, puro sangue, de fino trato, que tenha pulado muitas cercas e se envolvido com touros safados, bois sonsos, jumentos, burros xucros e pangarés.
- Farofa?...
- Farofa e xinxim de galinha caipira que tenha engordado extraordinariamente roubando rações de animais desprotegidos e doentes.
- Pra tomar?...
- Uísque escocês. Coloque três doses num copo de cristal que não tenha sido usado, copo virgem; no mesmo copo coloque a mesma quantidade da pinga mais vagabunda que tiver e seis pedras de gelo.
- Terei que utilizar dois copos.
- Seja sensato, num copo só.
- Não cabe senhor!
- Por que tudo tem que ter cabimento?! Sejamos realistas.
- Mais alguma coisa?
- Troque esta faca.
- O garfo e a colher também?
- Só a faca.
- Mas a faca está tão limpa quanto o garfo e a colher!
- Exatamente por isso, muita limpeza reunida é ficção. Traga uma faca suja, de preferência contaminada.
- Posso saber por quê?
- Porque não estamos no mundo da lua. O senhor reparou que a toalha não combina com a mesa?
- Desculpe, mas acho que combina.
- Claro que não combina, deveria ser uma toalha imunda encobrindo uma mesa limpa ou uma mesa imunda camuflada com uma toalha limpa!
- Não vamos discutir por isso.
- Cadê os guardanapos?
- Aí.
- Estou pedindo guardanapos sujos.
- Não temos.
- Como não?!... Pegue-os no lixo, eu vou pagar a conta, exijo um bom atendimento! Não vai perguntar se vou querer sobremesa?
- Perguntarei depois.
- Pois pergunte agora, vou querer agora.
- Temos sorvete, melancia, pudim de leite condensado, torta de nozes, mousse de chocolate, gelatina de abacaxi, pavê de amendoim e salada de frutas.
- Salada.
- Anotei.
- Anotou o quê?
- Que o Senhor quer salada de frutas de sobremesa.
- Eu quero salada de tudo, misture todas as opções de sobremesa e traga.
- Certo.
- Coloque aquelas uvas e aqueles morangos também.
- Impossível, são artificiais.
- E daí, artificiais também têm vez!
- Tudo bem. Só acho que o senhor escolheu uma maneira complicada de se matar.
- Amo a vida, pretendo viver muitos anos, realizar muitos sonhos, é exatamente por isso que estou me preparando para suportar a realidade. Sou eleitor, acredito que o senhor também seja. Teremos que digerir coisas semelhantes!

sexta-feira, 13 de março de 2009

O vendedor de mentiras

- O senhor é vendedor de mentiras?
- Exatamente.
- Quais mentiras o senhor vende?
- Mentiras não caluniosas adaptadas, recicladas, de minha autoria...
- É um negócio rentável?
- Rentável e terapêutico.
- Terapêutico por quê?
- Porque os fregueses se sentem mais seguros, eliminam tensões, melhoram a auto-estima...
- Mentiras aliviam o estresse?
- Quando são convenientes para cada indivíduo em determinada ocasião.
- O senhor se considera um mentirólogo?!
- De maneira alguma, me considero um vendedor verdadeiro.
- Como teve a idéia de vender mentiras?
- Essa é uma idéia milenar, mentiras eram muito barganhadas, só que os comerciantes se diziam negociantes de verdades, como é costume até hoje. Eu decidi assumir o que realmente sou.
- Mentira tem perna curta?
- Pode ter, mas também pode ter asas e voar.
- Tem preferência por algum tipo de mentira?
- Mentiras de pescador, acho bárbaras! Dificilmente têm contra-indicação, divertem, surpreendem; falam de tartarugas maiores que montanhas, de monstros de várias cabeças que ficam presos num anzol de lambari. Se tivessem valor comercial eu trabalharia com elas.
- Quem mente mais, homens ou mulheres?
- É relativo, mulheres mentem muito porque querem ganhar e homens mentem muito porque não querem perder.
- A ocasião faz o mentiroso?
- Geralmente, quem está sendo assaltado não vai dizer que tem mais dinheiro na meia!
- Religiosos mentem menos que não religiosos?
- Muitos dizem que Deus só abençoa se dermos dinheiro para a instituição deles. É a mentira em benefício próprio, mas há os que acreditam nessas heresias.
- Quais são as mentiras mais valorizadas?
- As protagonizadas por famosos valem mais, por isso que eles fazem tantos comerciais.
- Estudiosos afirmam que os políticos são os profissionais que mais mentem, concorda com eles?
- É mentira. Ninguém supera os publicitários, são eles, inclusive, que elegem inúmeros políticos!
- Mentiras políticas o senhor negocia?
- Não.
- Por quê?
- Requerem pesquisas, exigem cenários específicos, vozes adequadas e depois precisam ser finalizadas em estúdio. Mesmo com tudo bem planejado podem dar prejuízo e trazer arrependimento.
- Mentiras judiciais?
- Nunca, não vendo documentos nem atestados.
- E mentiras ufológicas?
- Vendi muitas há uns dezesseis anos atrás, no início da carreira, mas até minha família me tratava como se eu fosse um abilolado.
- Interpreta sonhos?
- Interpreto sonhos ou pesadelos. São mentiras bem vistas, vendidas em livrarias, consultórios...
- Mentiras sobre o mundo dos anjos celestiais?
- Não. Não sou falsificador de bem-aventuranças.
- Sabe quem as comercializa?
- Sei, mas também não indico.
- E quando querem saber o que estão fazendo, por onde andam, como pensam e o que sentem pessoas que já faleceram?
- Pego uma caneta e escrevo mentiras de meu próprio punho, utilizo as de domínio público ou faço adaptações; depende do perfil do comprador.
- O que é preciso para escrever sobre o mundo dos mortos e vidas passadas?
- É preciso estar vivo!
- Não chega a se sentir poderoso?
- Jamais, estou ciente de que não sei o que surgiu primeiro, se foi o ovo ou a galinha.
- O homem veio do macaco?
- Não, veio de macaco.
- Como assim?
- Quando os macacos do planeta Símios vieram para a Terra, em suas naves especiais, trouxeram um homem no colo.
- É verdade que registra as mentiras que cria?
- Registro quando desconfio que a tal mentira poderá se tornar uma crendice popular.
- O que acontece quando uma mentira vira crendice?
- Fica muito mais fácil de transformá-la em dinheiro. Se o trisavô do avô da minha bisavó tivesse registrado a idéia de colocar elefantes de bum-bum pra porta, para dar sorte, teria construido um império!
- Ele fabricava elefantes?
- Não, ele era domador e para atrair público experimentou colocar o bum-bum do elefante na porta do circo, o povo que passava ficava doido pra ver a cara do dono da bundaça e só tinha uma saída: entrar pela bilheteria.
- O senhor tem alguma mentira especial para ser lançada?
- A Cura Pelas Penas de Aves. Trabalhei nessas mentiras quase uma década.
- Para que serve a pena de pavão?
- Eliminar verrugas.
- A de graúna?
- Combate queda de cabelo.
- De colibri?
- Regulariza o hipotálamo.
- De saracura?
- Para complicações na vesícula biliar.
- De araponga?
- Enxaqueca.
- De rouxinol?
- Cura inflamação no duodeno.
- Para curar raquitismo?
- Pena de flamingo.
- Otite?
- De viuvinha.
- E para emagrecer?
- Pena de quero-quero.
- Tem alguma pena que cure impotência sexual?!
- Pena do rabo do pintarroxo.
- Que ave é essa?
- É um pássaro muito comum em território europeu.
- Na falta do pintarroxo não serve a pena de pintassilgo?
- Não, de pintassilgo é para escabiose, sarna.
- O senhor testou essas penas?
- Lógico! Tenho tudo anotado e catalogado, garanto que não curam doença alguma, mas muitos jurarão que sararam graças às penas; por isso que registrei e salientei que só curam quando caem naturalmente de aves vivas e livres.
- E mentiras sobre o futuro?
- Vendo demais, desde que me tornei um profissional da área. São as mais procuradas.
- E não acontece de uma mentira sobre o futuro se transformar em verdade?
- É, acontece mas isso acontece com todos que prevêem o futuro. Eu fico chateado, mas fazer o quê? Acertar é humano!

quinta-feira, 12 de março de 2009

Música

Arara Azul

Arara azul perguntou: Quem sabe por onde anda meu bem?

O esquilo respondeu: Só vi um lobo-guará, lá, lá, lá, lá; mais ninguém.

O macaquinho esperto disse: Eu sei onde está o bacana,

e vou contar pra você assim que me der uma banana.

A coruja resmungou: É dia, chega de falação,

tem um tapetinho blue forrando o ninho de um gavião...

O bem-te-vi disse: Ver não vi, não sei, faço a mínima idéia,

mas pode ser que talvez, quem sabe, acaso na Basiléia.

O beija-flor parou no ar e disse: Conte comigo,

vou ajudar, procurar, voar, voar por um amigo!

Seriema cantou: Não quero mais te ver chorando,

também posso ajudar! Saiu a pé mas foi voando.

Dona raposa prometeu: Também te ajudo,

passa lá em casa! Todo mundo ficou mudo.

Arara, rara, respondeu: Não sou tatu,

vi você morta para papar urubu.

terça-feira, 3 de março de 2009

A podridão dos outros

Um brasileiro gritava que as coisas iam de mal a pior porque os outros não têm vergonha na cara, só pensam em levar vantagens, são nocivos, se preocupam cada vez mais em explorar e cada vez menos em produzir.
A dor parecia ser também dos que passavam, porque muitos paravam, concordavam, lamentavam profundamente a podridão dos outros que, enquanto são povo, querem resolver os problemas sociais, lutam com unhas e dentes. Então, se candidatam, se elegem, assumem o poder e passam a usar e a abusar dos cofres públicos.
Um vereador pediu a palavra, falou dos marajás, dos funcionários fantasmas, dos subornos. Garantiu que o grosso do dinheiro público é furtado, geralmente, via muitas empreiteiras que funcionam como poderosas quadrilhas organizadas.
Apareceu um prefeito e endossou a acusação do vereador, confessou ficar indignado com o procedimento ilícito de alguns outros prefeitos que denigrem a classe política e, muito pior, causam danos irreparáveis a municipalidade.
Um eleitor culpou os outros eleitores, disse que o povo, realmente, infelizmente, não sabe votar, não tem capacidade para escolher seus representantes, não tem consciência que poderia revolucionar a nação fazendo bom uso da arma que já tem em mãos: o título de eleitor. Todos concordaram e comentaram que o povo vota naqueles que prometem favores pessoais. Tacharam o povo de egoísta, mesquinho...
Uma senhora disse não se conformar com o enorme número de crianças miseráveis jogadas nas ruas, se marginalizando para sobreviverem, tudo porque os adultos não contribuem para a formação de uma sociedade menos selvagem. Lamentou a situação de aposentados, desamparados e humilhados por governantes, subestimados por pessoas jurídicas e ignorados por pessoas físicas. Encerrou sob olhares aprovadores
Uma educadora lamentou a mentalidade tacanha de humoristas escarnecedores, que se aproveitam de tragédias ou acidentes para gerar o humor desgraçado, banalizando a vida, semeando o desrespeito e contribuindo para a formação de uma geração pobre em solidariedade, paupérrima em amor ao próximo e rica em egoísmo.
Com a voz embargado um sociólogo recriminou famosos, que ao invés de aproveitarem a popularidade para defenderem causas nobres, se tornam garotos propaganda de toda sorte de produto, e pior: vendem a nudez de seus próprios corpos e se ofenderão se alguém disser que isso é prostituição.
Um empresário musical se dizia indignado com os que compram produtos piratas mas se imaginam honestos, idôneos e não reconhecem que são receptadores de coisas roubados.
Com um violão, um compositor cantou sua música de protesto, descendo o pau nos outros. Pediram bis, ele atendeu e todos tentaram cantarolar com ele.
Jovem disse não conseguir entender os outros jovens, que não têm originalidade, só copiam, entram no embalo, se preocupam em ter roupas de marca, relógios de marca, tênis de marca. Só a cabeça na "marcação". Mais aplausos.
Pais citaram erros de outros pais na criação dos filhos, filhos citaram erros de outros filhos, mães tentavam consertar outras mães, irmãos sabiam como melhorar seus irmãos, vizinhos queriam corrigir outros vizinhos. Todo mundo tinha receita para acabar com a podridão.
No meio da multidão, uma voz explicou que as coisas não melhoram porque as outras pessoas não percebem que a carapuça é pra elas. Cômico foi que todas riram da ingenuidade das outras.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

homenagem

João Justino é homenageado pelo Rotary de Campo Limpo Paulista

O Ratary Club de Campo Limpo Paulista prestou uma homenagem a João Justino Leite Filho, no dia 12 de fevereiro, no prédio da Apae do município, onde ocorre as reuniões dos sócios às quintas-feiras. Entre as palavras de carinho dos rotarianos, João Justino recebeu também um certificado e uma flâmula. Em troca, João Justino cantou uma de suas canções aos presentes, "Arara Azul".

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

Crônica

POLITIQUEIROS

Zé Promessa queria ser eleito, “faturar” rios de dinheiro, garantir o futuro dos filhos, dos netos, futuros bisnetos, ajudar os irmãos, cunhados, genros, tios, primos, amparar o sogro, a sogra; e até por uma questão de segurança dar cargos que “possibilitam” altos ganhos extra-salariais aos mais chegados, os companheiros de tramóias, e fazer vistas grossas.
Zé convidava todo mundo para sair candidato... Era uma maneira de conseguir muitos cabos eleitorais.
Florisval aceitou o convite, filiou-se ao partido e foi ter uma conversa reservada com Zé Promessa. Colocou algumas idéias, quis provar que tinha ótimas intenções, ia começar a falar no que pretendia sugerir que fosse pela educação e saúde quando foi interrompido.
- O que você tem para dar?
- Pra dar pra quem?!
- Ora, pro seu eleitorado!
- ... É... tenho minha honestidade, minha garra, minha perseverança...
Zé balançou a cabeça rindo e não enrolou:
- Mas você pretende se eleger?
- Claro!
- Então pare de perder tempo. O que você tem pra dar de concreto? Se não tem arranje e volte aqui para começarmos a trabalhar.
Florisval foi pra casa pensando no que poderia dar de concreto, passou o fim de semana quebrando a cabeça e na segunda-feira cedo foi comunicar ao padrinho político.
- Descobri o que posso dar de concreto!
- O quê?
- Postes!
- ... Se você souber convencer o eleitor que um poste é fundamental na vida de uma pessoa, ótimo! Não menospreze nenhum eleitor, até o indigente Salomé é importante porque vota. Bom trabalho!
Florisval saiu distribuindo postes a torto e a direito. Quando já não sabia mais com quem negociá-los, procurou o indigente que costumava ficar num terreno baldio.
- Olá, meu irmão, bom dia, vim te trazer um presente!
- Pra mim?
- Claro, você também é filho de Deus.
- Mas o que é, moço?
- Um poste, de ótima qualidade!
- Mas o que que eu vô fazê cum poste?!
- Tanta coisa... Um poste vale uma nota! O meu vizinho derrubou um poste desse com o carro, vendeu o carro e o dinheiro não deu pra pagar o poste!
- É?
- Te Juro!
- Puxa, moço, nem sei como agradecê.
- Magina! ...Olha, eu sou candidato e estou precisando muito do seu voto pra poder lutar pelos pobres. Não vá pensar que é porque eu te dei um poste último tipo que eu quero o seu voto. Te dei o poste porque gosto de ajudar os pobres, e preciso de seu voto pra poder te ajudar muito mais.
- Meu voto é seu.
- Palavra?!
- Palavra de home!
- Eu sinto que você é um cara de palavra, como poucos. Você não vai se arrepender. Fica com Deus.
Florisval saiu, chegou Chico Mostarda.
- Oi, amigo, que que tá fazendo com esse poste?!
- Seu Florval que deu.
- Pra você votar nele, mas eu tenho certeza que você não é nenhum idiota de trocar seu voto por um poste!
- Mais esse poste vale mais que um carro!
- Ele te falou isso?
- Falô!
- Ele pediu o voto antes ou depois de dar o poste?
- Depois.
- Pra te deixar sem jeito de dizer que não votava nele. Eu também sou candidato, mas abro o jogo logo de cara, jogo limpo. Vou te dar coisa que vale muito mais que poste.
- O quê?
- Um cachorro!
- Mais eu quero ficá co poste!
- E vai ficar. É exatamente por isso que você precisa do cachorro, pra proteger o poste. Tá cheio de ladrão de poste por aí. E tem mais, o cachorro vai proteger você também. Cachorro é o melhor amigo do homem, e adora poste. Estava me esquecendo de dizer que o seu cachorro é de raça! Posso contar com o seu voto?
- Pode, pode sim.
Saiu Chico mostarda, chegou Maria Auxiliadora.
- Bonito cachorro!
- É de raça. Seu Chico Mostarda que deu pra protegê o poste.
- Bonitinho mas não é de raça, é vira-lata no duro! E esse cachorro precisa ser vacinado o mais rápido possível contra raiva, senão fica louco.
- Como a senhora sabe?
- Tá na cara do cachorro. E vacina tá tão caro! Pior é que ele pode morder o senhor...
- Não tenho como vaciná ele não, dona!
- Engraçado, acabei de comprar vacina para dar no meu cachorro. Parece que foi Deus que me mandou aqui pra salvar o seu cachorro e o senhor. Pode deixar, eu mesma aplico.
- Deus lhe pague. A senhora salvô a vida dele.
- E quando for eleita, com o voto que o senhor vai me dar, continuarei de braços abertos pro senhor!
- Vô votá na senhora.
- Saiu Auxiliadora, chegou Mané no Bloco.
- Calor de rachá, não?!
- É mesmo.
- Precisa fazer uma casa pro pobre animal, senão ele vai morrer torrado. Por que não faz uma casa de blocos?
- E eu lá tenho bloco?!
- Claro que tem. O que é meu é seu. Quero me eleger e ver todo mundo com a sua casinha! Até cachorro, coitado.
Salomé estava arrumando os blocos quando chega o dr Celso.
- Virou construtor, Salomé?!
- Não, tô só fazeno uma casinha.
- Casa?!
- É pro cachorro.
- Não é assim não. Pra fazer uma casa você precisa de uma planta assinada por um engenheiro. Se amanhã ou depois der algum problema o engenheiro será responsabilizado. Agora, se você constrói a olho, e a casa cai e esmaga o cachorro, a Sociedade Protetora dos Animais te mete um processo por homicídio culposo e você vai pará no xilindró!
- Como eu vô fazê, então?
- Você não vai fazer nada, eu é que vou fazer. Sou engenheiro, faço a planta e mando um pedreiro bom construir pra você.
- Mas quanto o senhor vai cobrá?
- Eu? Nada!
- E o pedreiro?
- O pedreiro cobra bem caro, mas eu vou pagar o serviço pra você.
- Se o dotô fô candidato pode contá co meu voto!
- Vou contar mesmo.
As eleições se aproximam e Zé Promessa também vai visitar o indigente.
- Bela casa, Salomé! Eu pedi pra te darem uma força e agora vim te avisar que vou mandar comida pro cachorro todos os dias, até as eleições; se eu ganhar você está bonito, sustentarei o bichinho até o final do meu mandato.
- O senhor que vá pro diabo que te carregue!
- Que é isso, Salomé, vamos governar juntos!
- ...Mataro meu cachorro antes donte.
- Coisa da oposição, companheiro. Que cachorrada!!! Deixa comigo, eu eleito te dou outro cachorro.
- Só voto no senhor se me dé o cachorro agora.
- Aguarde cinco minutinhos.
- Não vô aguardá nem um minuto!
Zé Promessa mais que depressa ficou de quatro, abanou a cauda e confidenciou:
- Eu sou um cachorro.

terça-feira, 27 de janeiro de 2009

Modelos de Deus

Não é preciso pesar aproximadamente 50 quilos e nem medir, pelo menos, 1,72 metro. Pode ser um corpo imperfeito, estranho, desproporcional, desequilibrado, desengonçado, obeso, pouco ou muito acima do peso. Tudo bem se tiver bem menos de metro e meio, aliás, os menores têm o tamanho de um óvulo fecundado.
Podem ser corpos modelados, esculpidos, sarados; o fundamental é que sirvam de passarela para o amor, a paz, a fé, a caridade, o respeito, o arrependimento, o perdão. Deus não faz distinção de pessoas, faz distinção de coração.
Os modelos de Deus poderão ser coroados mesmo não sabendo falar, ler, escrever ou andar, mas é recomendável que não enterrem os talentos, é aconselhável que desfilem com bom ânimo e é prudente que façam jejum de palavras, de atitudes, de sentimentos. É perigoso alimentar certos sentimentos, é preciso vigiar.
Os modelos de Deus insistem em se despir da ira, da vingança, do pessimismo e procuram se vestir de compaixão, de solidariedade, de amor e têm registrado na alma que não devem se vender à outras agências porque já foram comprados a preço de sangue imaculado.
Modelos recém-nascidos desfilam nus, chorando, trazendo na pele desenhos individuais, manchas, marcas genéticas, tatuagens Divinas, sinais celestiais.
A passarela para o desfile estará no trabalho, na escola, no trânsito, em casa, no clube, na rua; onde o modelo estiver, seja ele jogador ou torcedor, mesmo no intervalo, de férias ou num leito de hospital, cada passo será registrado, até o último suspiro.
Como Deus prefere chamá-los de filhos, as alternativas para que os filhos de Deus adquiram um apartamento, um carro, uma casa, uma fazenda ou mansão, jamais foi, é ou será a corrupção, a degradação. Os filhos sabem disso e sabem que o Pai proporciona salário família, salário filho, filha, neta, neto, bisneta, bisneto...
Muitos filhos de Deus serão tentados, ou melhor, quase todos são e serão. Mas não devem se iludir com tesouros perecíveis, nem se encantar com encantamentos humanamente limitados, pois o fogo ardente pode não queimar, qualquer tempestade pode aquietar e leões famintos aprendem a jejuar e o mais incrédulo dos incrédulos passa a acreditar, se for a vontade do Altíssimo.
O que deve prevalecer para os filhos de Deus não são os holofotes dos homens.
Lógico que os filhos de Deus erram, se enganam, enganam, escorregam, tropeçam, caem, se traem. Deus os orienta, os adverte, converte, liberta, transforma, informa, acolhe e também recolhe, como os pais recolhem seus filhos das ruas sem presente que valha a pena e sem futuro.
Filhos de Deus não barbarizam, só se perderem a sanidade, ou se abandonarem a paternidade perdendo a herança.
Os filhos de Deus ficam inconformados quando alguém diz que o Pai deles não existe, mas foi o Onipotente que deu aos humanos livre arbítrio, e sendo assim cada um pode emitir suas finitas opiniões, sobre a existência, sobre a vida e até sobre o Divino, inclusive tentando ignorá-Lo. Contestadores poderão acabar mal aventurados por si mesmos, só que os filhos do Onisciente não devem julgar porque Deus pode ter misericórdia de quem Ele tiver misericórdia.
Herdeiros do Onipresente utilizam diferentes vestimentas e armaduras, assim como os bombeiros escolhem a roupa e os equipamentos apropriados para cada ocasião. E não são poucos os que reconhecem que a fé é um talento e agradecem por não estarem na incredulidade, por terem sido retirados de lá e pelo renascimento. E agradecem pela vida, porque para desfilar para Deus na Terra tem que ter sangue correndo na veia, tem que haver pulsação, sopro de vida, ainda que em um corpo inerte. Mortos não desfilam mais aos vivos.
Os que desfilam para Deus serão perseguidos pelos inimigos do Todo Poderoso, mas poderão receber cachês Divinos, poderão firmar contratos eternos e podem se alimentar do que de melhor há no planeta, mas é essencial que saibam repartir o pão.

terça-feira, 13 de janeiro de 2009

LUZ DA LUZ

Eu era quase meu senhor
A dor se ergueu no meu jardim
A minha voz mudou de tom
Meu lado mal ganhou do bom
Eu era quase contra mim
Andando meio contra o céu
E meio mundo me acusou
De ter perdido a provação
Por ter cedido a tentação
Que um anjo mau arquitetou

Eu era quase seu senhor
A dor surgiu no seu jardim
A sua voz mudou de tom
Seu lado mal ganhou do bom
Você já quase contra mim
Me olhando meio contra o céu
E tantas vezes me acusou
De ter perdido a provação
Por ser eu mesmo a tentação
Um anjo mau que te abraçou

Eu era quase sem senhor
Quase que era sem jardim
Guardando a voz, perdendo o tom
Sem lado mal nem lado bom
Corria de encontro a mim
Olhando sempre para o céu
Senti que um anjo me avisou
Que além do sol, além da lua
E muito aquém da luz da rua
A Luz da Luz sempre me olhou

Para começar o ano, nada como uma boa poesia.