sexta-feira, 13 de março de 2009

O vendedor de mentiras

- O senhor é vendedor de mentiras?
- Exatamente.
- Quais mentiras o senhor vende?
- Mentiras não caluniosas adaptadas, recicladas, de minha autoria...
- É um negócio rentável?
- Rentável e terapêutico.
- Terapêutico por quê?
- Porque os fregueses se sentem mais seguros, eliminam tensões, melhoram a auto-estima...
- Mentiras aliviam o estresse?
- Quando são convenientes para cada indivíduo em determinada ocasião.
- O senhor se considera um mentirólogo?!
- De maneira alguma, me considero um vendedor verdadeiro.
- Como teve a idéia de vender mentiras?
- Essa é uma idéia milenar, mentiras eram muito barganhadas, só que os comerciantes se diziam negociantes de verdades, como é costume até hoje. Eu decidi assumir o que realmente sou.
- Mentira tem perna curta?
- Pode ter, mas também pode ter asas e voar.
- Tem preferência por algum tipo de mentira?
- Mentiras de pescador, acho bárbaras! Dificilmente têm contra-indicação, divertem, surpreendem; falam de tartarugas maiores que montanhas, de monstros de várias cabeças que ficam presos num anzol de lambari. Se tivessem valor comercial eu trabalharia com elas.
- Quem mente mais, homens ou mulheres?
- É relativo, mulheres mentem muito porque querem ganhar e homens mentem muito porque não querem perder.
- A ocasião faz o mentiroso?
- Geralmente, quem está sendo assaltado não vai dizer que tem mais dinheiro na meia!
- Religiosos mentem menos que não religiosos?
- Muitos dizem que Deus só abençoa se dermos dinheiro para a instituição deles. É a mentira em benefício próprio, mas há os que acreditam nessas heresias.
- Quais são as mentiras mais valorizadas?
- As protagonizadas por famosos valem mais, por isso que eles fazem tantos comerciais.
- Estudiosos afirmam que os políticos são os profissionais que mais mentem, concorda com eles?
- É mentira. Ninguém supera os publicitários, são eles, inclusive, que elegem inúmeros políticos!
- Mentiras políticas o senhor negocia?
- Não.
- Por quê?
- Requerem pesquisas, exigem cenários específicos, vozes adequadas e depois precisam ser finalizadas em estúdio. Mesmo com tudo bem planejado podem dar prejuízo e trazer arrependimento.
- Mentiras judiciais?
- Nunca, não vendo documentos nem atestados.
- E mentiras ufológicas?
- Vendi muitas há uns dezesseis anos atrás, no início da carreira, mas até minha família me tratava como se eu fosse um abilolado.
- Interpreta sonhos?
- Interpreto sonhos ou pesadelos. São mentiras bem vistas, vendidas em livrarias, consultórios...
- Mentiras sobre o mundo dos anjos celestiais?
- Não. Não sou falsificador de bem-aventuranças.
- Sabe quem as comercializa?
- Sei, mas também não indico.
- E quando querem saber o que estão fazendo, por onde andam, como pensam e o que sentem pessoas que já faleceram?
- Pego uma caneta e escrevo mentiras de meu próprio punho, utilizo as de domínio público ou faço adaptações; depende do perfil do comprador.
- O que é preciso para escrever sobre o mundo dos mortos e vidas passadas?
- É preciso estar vivo!
- Não chega a se sentir poderoso?
- Jamais, estou ciente de que não sei o que surgiu primeiro, se foi o ovo ou a galinha.
- O homem veio do macaco?
- Não, veio de macaco.
- Como assim?
- Quando os macacos do planeta Símios vieram para a Terra, em suas naves especiais, trouxeram um homem no colo.
- É verdade que registra as mentiras que cria?
- Registro quando desconfio que a tal mentira poderá se tornar uma crendice popular.
- O que acontece quando uma mentira vira crendice?
- Fica muito mais fácil de transformá-la em dinheiro. Se o trisavô do avô da minha bisavó tivesse registrado a idéia de colocar elefantes de bum-bum pra porta, para dar sorte, teria construido um império!
- Ele fabricava elefantes?
- Não, ele era domador e para atrair público experimentou colocar o bum-bum do elefante na porta do circo, o povo que passava ficava doido pra ver a cara do dono da bundaça e só tinha uma saída: entrar pela bilheteria.
- O senhor tem alguma mentira especial para ser lançada?
- A Cura Pelas Penas de Aves. Trabalhei nessas mentiras quase uma década.
- Para que serve a pena de pavão?
- Eliminar verrugas.
- A de graúna?
- Combate queda de cabelo.
- De colibri?
- Regulariza o hipotálamo.
- De saracura?
- Para complicações na vesícula biliar.
- De araponga?
- Enxaqueca.
- De rouxinol?
- Cura inflamação no duodeno.
- Para curar raquitismo?
- Pena de flamingo.
- Otite?
- De viuvinha.
- E para emagrecer?
- Pena de quero-quero.
- Tem alguma pena que cure impotência sexual?!
- Pena do rabo do pintarroxo.
- Que ave é essa?
- É um pássaro muito comum em território europeu.
- Na falta do pintarroxo não serve a pena de pintassilgo?
- Não, de pintassilgo é para escabiose, sarna.
- O senhor testou essas penas?
- Lógico! Tenho tudo anotado e catalogado, garanto que não curam doença alguma, mas muitos jurarão que sararam graças às penas; por isso que registrei e salientei que só curam quando caem naturalmente de aves vivas e livres.
- E mentiras sobre o futuro?
- Vendo demais, desde que me tornei um profissional da área. São as mais procuradas.
- E não acontece de uma mentira sobre o futuro se transformar em verdade?
- É, acontece mas isso acontece com todos que prevêem o futuro. Eu fico chateado, mas fazer o quê? Acertar é humano!

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